Êxodo
Confesso que levei mais de um mês maquinando um post aqui pro blog. Pra ser mais exato 1 mês e 19 dias com um texto na cabeça feito de palavras soltas que por mais que eu tentasse junta-las de forma coesa para enfim apresentarem o mínimo de nexo, de nada valia o esforço. Difícil você saber o significado de algo, saber o ‘sentir’ desse algo, mas não saber fazer com que tenha sentido. Até hoje.
O título do texto encaixa perfeitamente com todo o resultado causado pelo emaranhado de sentimentos que me habitam. Como aprendemos na escola, êxodo em seu significado é: s.m. Saída; emigração em massa de um povo (ou de parte dele). E através da história vimos que a grande maioria desses êxodos foram causados por elementos externos, que forçavam a mudança do habitantes de certo local para outro. A diferença é que no caso aqui descrito, o êxodo não é da massa de um povo ou de parte dele, mas sim de apenas um, eu.
Nesses últimos dois meses eu visitei locais dentro de mim que nunca imaginei que existissem, poços tão fundos e tão frios que parecia óbvia a minha incapacidade de fugir e inevitável o meu apodrecer. Nada mais importava, nada mesmo, se nem eu importava mais para mim como o mundo poderia ter alguma chance não é mesmo? Me deixei levar pelo desespero do sentimento de impotência, de abandono e principalmente de solidão. Nunca em toda a minha vida senti algo tão latente como essa solidão que me segue até os dias atuais. Apenas, inocentemente, imaginava ter sentido algo que pudesse nomear como tal, mas estava enganado. E como num ato de salvação me agarrei nessa névoa como se minha própria vida dependesse disso.
Foram dias sem comer, sem dormir, sem sair do quarto, sem me olhar no espelho, sem querer ser eu, sem querer ter existido, sem querer. Com o passar do tempo, como tudo nessa vida, as coisas foram amenizando até alcançarem uma constante, mas nada passou. Está tudo aqui, meio desnorteado, dando sinais de vida dia sim dia não, mas ainda aqui.
Nunca em hipótese alguma cheguei a me julgar uma pessoa digna da qualidade de ruim, uma pessoa maldosa. Tenho que admitir que modéstia à parte tenho plena noção que não só meu coração, mas minha alma também é impregnada de elementos que fazem de mim alguém bom, do bem. Talvez pela educação que levei dos meus pais, ou por conta das amizades que me ajudaram a formar meu caráter, ou até mesmo por motivos astrológicos, não interessa, eu sou uma pessoa boa, e o melhor, eu sei disso. Mas infelizmente não foi o bastante pra evitar que eu errasse. E não foram 1 nem 2 erros, foram vários, foi um combo de pisadas na bola que colocaria qualquer filme de comédia dramática no chão. Fui atrapalhado. Vai ver sou atrapalhado. Mas não tinha o direito.
Sabe quando você tem algo em mente, algo que pensa que vai melhorar tudo, pratica o ato e de repente o resultado sai completamente diferente? Pois tem sido assim nos últimos meses pra mim. Cansei.
Aí onde entra o “meu” título.
Desapontei muitas pessoas, das quais chega dói de verdade imaginar que eu tenha chegado perto de causar algum mal a elas, dói imaginar também, tudo dói. Ouvi palavras das bocas de meus maiores ídolos, de parceiros que se não tivessem entrado na minha história não haveria história, e também ouvi palavras de bocas que desejo distância, a maior possível, e o pior que dessas bocas malditas não foram apenas insultos, foram palavras de moral. Lição de moral daquele que você quer distância não faz muito bem, vão por mim. Chego a tremer, juro pra vocês, ao realizar que quase fui o protagonista do maior dano causado à pessoa que eu digo, sem medo algum de estar enganado, que mais amo nesse mundo. E como dói, tanto que minha única saída foi o êxodo.
Não me venham vocês com pensamentos de como sou covarde em não encarar o próprio estrago, ou em como tenho coragem de deixar por isso mesmo e não provar o contrário a todos. O êxodo está aí para situações como essa, acontece quando o local não é mais habitável, não é mais possível viver nas condições que são oferecidas, então se procura outro ambiente, para então recomeçar. Pois de que adianta lutar uma guerra perdida? Um titulo de bravura? O rótulo da coragem? Será que esses adjetivos valem o esforço inútil e humilhante? Bom, eu não quero saber.
Já ouvi demais, já tentei demais, já chorei demais e o pior, já fiz chorarem demais. Alimento em mim uma saudade que rasga meu peito com lembranças lindas que são como navalha, rasga sem dó. Queria tudo de novo, talvez eu precise de tudo de novo, mas o que posso fazer? Olhares desconfiados e comentários degradantes nunca foram de me atingir, desde que quando feitos por estranhos, por pessoas irrelevantes, mas quando feitos pelos meus amados me atravessam o coração feito bala, mas bala de canhão mesmo. Como fingir que não estou vendo nada disso? De onde tirar todo esse sangue frio? Como fingir que não sinto nada num lugar onde transpiro sentimento por cada um? Melhor aceitar o real.
Tudo o que eu tenho está aqui, tudo o que construí, tudo o que me fez ser a pessoa que sou hoje, absolutamente tudo. E do nada, eu não sei mais como viver no meio desse meu tudo, não sei mais como ser eu, como reagir a estímulos, não sei estar na companhia do meu tudo. Talvez por não ser mais meu, por ter perdido, quem sabe… deixa pra lá.
Quando ninguém mais tem fé em você, é chegada a hora de fazer alguma coisa.
Então que seja feito.
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